publicado em 14/07/2025 às 08h32 •
Muitas empresas adotam Scrum, Kanban ou outros métodos ágeis esperando obter maior velocidade, previsibilidade e geração de valor. Porém, mesmo com equipes ágeis e processos bem definidos, um problema continua sendo bastante comum: a desconexão entre estratégia e execução.
Enquanto a liderança define objetivos estratégicos, os times trabalham em demandas operacionais do dia a dia. No meio desse caminho, prioridades mudam, dependências surgem e a organização perde eficiência.
Foi justamente para resolver esse desafio que surgiu o conceito de Flight Levels.
Flight Levels é um modelo organizacional criado por Klaus Leopold que tem como objetivo melhorar a colaboração entre equipes, áreas e níveis hierárquicos de uma empresa.
Ao contrário do que muitos imaginam, Flight Levels não é um framework, uma metodologia ou um processo que substitui Scrum, Kanban ou qualquer outra prática existente.
Na verdade, trata-se de uma forma de visualizar e gerenciar o fluxo de trabalho em diferentes níveis da organização, criando alinhamento entre estratégia, coordenação e execução.
A ideia central é simples: muitas empresas possuem equipes eficientes, mas enfrentam dificuldades para coordenar iniciativas que atravessam múltiplos departamentos. O Flight Levels busca justamente conectar essas partes da organização.
O conceito foi apresentado por Klaus Leopold após anos de experiência ajudando organizações a melhorar seus sistemas de trabalho utilizando princípios de Kanban e gestão de fluxo.
Durante suas consultorias, ele percebeu que muitos problemas atribuídos às equipes eram, na verdade, problemas sistêmicos.
Frequentemente os times entregavam bem, mas existiam gargalos relacionados a:
Falta de alinhamento estratégico
Dependências entre equipes
Priorização conflitante
Comunicação ineficiente entre áreas
Excesso de trabalho em andamento
A partir dessa observação, surgiu o modelo Flight Levels, inspirado na analogia dos níveis de voo de uma aeronave. Assim como um piloto enxerga diferentes perspectivas dependendo da altitude, uma organização também precisa observar seu trabalho em diferentes níveis para tomar melhores decisões.
O modelo é composto por três níveis principais.
Este é o nível mais próximo do trabalho operacional. Aqui estão as equipes que desenvolvem produtos, implementam funcionalidades, corrigem problemas e entregam valor diretamente ao cliente.
Normalmente encontramos nesse nível práticas como:
Scrum
Kanban
XP
DevOps
Gestão de backlog
O foco está na execução eficiente do trabalho.
Perguntas comuns nesse nível incluem:
O que estamos fazendo?
Qual é nossa capacidade?
Onde estão nossos gargalos?
Como melhorar nosso fluxo?
O segundo nível é onde ocorre a coordenação entre múltiplas equipes. Muitas iniciativas estratégicas dependem da colaboração de diversas áreas da empresa. Quando cada equipe trabalha isoladamente, surgem atrasos, conflitos de prioridade e perda de eficiência.
O Flight Level 2 cria um espaço para visualizar essas iniciativas e gerenciar dependências.
Perguntas típicas desse nível:
Quais equipes estão envolvidas nesta iniciativa?
Existem bloqueios entre áreas?
Quais dependências precisam ser tratadas?
Estamos avançando na direção correta?
Este costuma ser o nível que gera maior impacto nas organizações, pois é onde grande parte dos problemas sistêmicos se manifesta.
O terceiro nível conecta o trabalho operacional aos objetivos de negócio. Aqui são discutidas prioridades organizacionais, investimentos, objetivos estratégicos e iniciativas de transformação.
O objetivo não é gerenciar tarefas, mas sim garantir que a organização esteja direcionando energia para aquilo que realmente gera resultado.
Perguntas comuns:
Quais objetivos estratégicos queremos atingir?
Quais iniciativas apoiam esses objetivos?
Estamos investindo recursos nas prioridades corretas?
Como medir o impacto gerado?
O verdadeiro poder do Flight Levels está na conexão entre os níveis.
Em muitas empresas, a estratégia é definida pela liderança e simplesmente "jogada" para os times executarem.
O resultado costuma ser desalinhamento e perda de contexto.
No Flight Levels, existe um fluxo contínuo de informações:
A estratégia orienta as iniciativas
As iniciativas coordenam o trabalho entre equipes
As equipes executam o trabalho
Os resultados retornam para apoiar novas decisões estratégicas
Essa conexão cria maior transparência e alinhamento organizacional.
Um erro comum é acreditar que a implementação exige uma grande transformação organizacional. Na realidade, Flight Levels foi criado justamente para ser introduzido de forma incremental.
Comece observando onde estão os principais desafios da organização. Exemplos:
Projetos que atrasam constantemente
Dependências entre equipes
Prioridades conflitantes
Falta de visibilidade sobre iniciativas
O foco deve ser resolver problemas reais, não implantar um modelo por modismo.
Visualize como o trabalho percorre a organização. Identifique:
Equipes envolvidas
Etapas do fluxo
Dependências
Gargalos
O objetivo é compreender o sistema como um todo.
Em muitos casos, o primeiro Flight Level implementado é justamente o nível 2. Crie um quadro visual contendo iniciativas que dependem de múltiplas equipes. Não gerencie tarefas individuais. Gerencie iniciativas e dependências.
Promova reuniões periódicas focadas em fluxo e colaboração. As discussões devem abordar:
Bloqueios
Dependências
Prioridades
Riscos
O foco não é status report, mas sim tomada de decisão.
Para avaliar a efetividade do sistema, acompanhe indicadores como:
LeadTime
CycleTime
Throughput
Work In Progress (WIP)
Aging Work Items
Essas métricas ajudam a identificar oportunidades de melhoria contínua.
Quando bem aplicado, o modelo pode gerar diversos benefícios:
Maior alinhamento entre estratégia e execução
Redução de dependências e gargalos
Melhor colaboração entre áreas
Mais transparência organizacional
Priorização mais eficiente
Melhoria do fluxo de entrega
Decisões baseadas em dados e não em percepção
Além disso, Flight Levels pode coexistir perfeitamente com Scrum, Kanban, SAFe, OKRs e outros modelos de gestão.
Para finalizar, flight Levels não busca substituir frameworks ou metodologias existentes. Seu propósito é conectar pessoas, equipes e estratégias por meio de uma visão sistêmica do fluxo de trabalho.
Em um cenário onde muitas organizações já possuem equipes ágeis, o maior desafio deixou de ser apenas executar bem. O desafio passou a ser coordenar esforços, alinhar prioridades e garantir que o trabalho realizado contribua efetivamente para os objetivos do negócio.
Nesse contexto, Flight Levels surge como uma abordagem poderosa para criar alinhamento organizacional, melhorar a colaboração entre áreas e transformar estratégia em resultados concretos.
Se tiver dúvidas sobre flight levels, como aplicar e desafios e conquistas que já vivi trabalhando com esse modelo, fique a vontade para me escrever.
Até mais!